
A luz do início da tarde passava filtrada pela cortina clara e, rebatida no espelho, embranquecia o quarto todo. De microfone em punho entrei e vi o homem na cama, coberto por uma manta branca. Das narinas saia uma mangueira que se ligava à maquina barulhenta e o som do motor parecia já não incomodar o paciente.
Por um momento, desconfiei que já não havia matéria. Ele estava tão pálido, inerte, que o entendi morto. O pensamento parece tê-lo despertado. Ele abriu os olhos e falou pra eu entrar, sorrindo com esforço.
Em uma rápida vistoria no ambiente, enxerguei a foto avermelhada de uma moça bonita, de olhos vivos e sorriso largo. Identifiquei nela a senhora de olhos fundos e avermelhados na sala.
O homem de 71 anos tem câncer. Os tumores se espalharam do estômago para o intestino, fígado, pulmões e atingiram os ossos das pernas. A matéria era pra mostrar a dificuldade que a família está tendo para administrar o aumento dos gastos com energia elétrica depois que o aposentado conseguiu o aparelho de oxigênio para ficar em casa e não no hospital.
Mas eu já estava atenta ao sofrimento daquela esposa. O mínimo gemido do marido a fazia saltar da cadeira e correr ao quarto. Costureira, apaixonada pelo que faz e dependente da renda que obtém com as encomendas, ela se divide entre a máquina e os cuidados com o marido. E o atende sorrindo, ajeita as cobertas e afaga-lhe os cabelos brancos.
Os dois sabem que isso não vai durar muito e parece que se despedem a cada toque.
1 comentários:
Fim. Precisa escrever mais nada.
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