A mulher não podia ser identificada, por isso o cinegrafista enquadra só um dos olhos. A matéria vai começar com um olho solitário que lacrimeja, um dos cacos da mulher estraçalhada que eu tenho a minha frente. Mas como colocar em um VT a dor inteira que ela sente há anos?
Arqueada, ombros frágeis, voz balbuciante, quase infantil, desprotegida, ela me conta que conheceu o inferno aos seis anos. Tudo começou quando um tio a tocou como não devia. Ela correu, buscou proteção, pediu socorro aos pais. Houve um rebuliço na família, um prenúncio de escândalo — mas ela não tinha tanta sorte. Entre o escândalo e a harmonia, pais e avós preferiram abafar o caso, afinal "nada grave havia acontecido mesmo".
A ousadia do tio porém atiçara uma serpente que dormia ainda mais perto da criança. A mãe via o marido se levantar para ver a filha e pensava que era cuidado paterno. Não era. "Eu lembro do terror que senti ao perceber que ele me alisava, que passava a mão no meu corpo com maldade. Ele devia me proteger."— é o que eu ouço de uma boca trêmula.
Aos toques do pai seguiram-se os do irmão 6 anos mais velho. O que os adultos apenas tentaram, o menino conseguiu. Estupros repetidos, abusos acrescidos de ameaças, de intimidação. "Infância infeliz, eu queria gritar, mas sabia que nada ia acontecer, nada havia acontecido antes, só vergonha e humilhação."
Aos doze, já adolescente, ela começou a se defender. Aprendeu a ameaçar também. Ninguém mais a molestava porque havia o perigo dela cumprir a promessa e gritar. Não tinha amigos, era tímida, acabou se casando cedo, mais pra sair daquele ambiente.
Casamento pra fugir não funciona e não dá certo. O dela acabou logo, mas deixou dois filhos e mais uma oportunidade de voltar ao martírio. O pai morto, o irmão nos Estados Unidos, ela decidiu voltar a morar com a mãe. Precisava trabalhar, as crianças ficavam com a avó. Seguiu a vida.
Acontece que o irmão abusador, agora adulto, também pai, voltou. Talvez tenha reconhecido na sobrinha nova chance de voltar a exercer domínio, influência. Sem que a irmã soubesse, o homem se aproximou da menina de seis anos. E tudo se repetiu. A voz embargada tenta narrar o horror dessa constatação mas a mulher desaba. Quem vê a matéria, enxerga apenas um silhueta sem feições. Eu vejo pálpebras apertadas, rugas que se afundam, olhos injetados, dor e, acreditem, culpa. É a vítima que se responsabiliza por ser vítima sem ter realmente chance nenhuma de defesa.
"O suporte que eu não tive, vou buscar para minha filha, ela é linda, ela é mais forte, ela vai superar o que eu não consegui. Ela precisa ser feliz" a mulher repete, já não pra mim, nem pra matéria. Repete para si, tenta se convencer.
E eu acredito porque dessa vez o estuprador não pode dormir tranquilo e saciado no quarto ao lado. Só porque houve o grito e houve escândalo.
Quarta-feira, Julho 14, 2010
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2 comentários:
Cada um à sua maneira, TODOS nós devíamos gritar mais e fazer mais escândalos diante da maldade e do abuso...nosso grito às vezes é tímido, munidos com nossos microfones, mas amplifica o pedido de ajuda de mulheres como esta!!
Que horror! Que horror!
Que os gritos se multipliquem até não haver mais dor.
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